Uma iniciativa do Instituto Talanoa

Os gastos públicos da União com mitigação dos gases de efeito estufa e adaptação às mudanças climáticas correspondem a apenas 0,15% em relação ao total das despesas federais autorizadas em 2022.

como estamos?

A União investe pouco no combate às mudanças climáticas e investe mal. Em resumo, o combate ao desmatamento por militares em 2020 consumiu mais do que o dobro do dinheiro destinado aos órgãos ambientais nesse ano. O programa de mobilidade urbana destina mais dinheiro para pavimentação de vias, em detrimento ao transporte coletivo urbano ou não motorizado. A única experiência de pagamento por serviços ambientais com dinheiro da União foi suspensa em 2017.

Os recursos destinados à proteção ambiental pela União apresentam queda de 36%, entre os R$ 8 bilhões gastos em 2010 e os R$ 5,2 bilhões, em 2020. Têm destaque aqueles destinados ao abastecimento de água, esgotamento sanitário e poluição das águas, seguidos pelos gastos com proteção da biodiversidade e da paisagem.
Em maio de 2022, as doações feitas ao Fundo Amazônia acumulavam R$ 3,2 bilhões para empréstimos, congelados desde o início do governo Bolsonaro, em decorrência da mudança na forma de gerir os recursos. Também há recursos do Green Climate Fund, destinados ao Floresta +, de pagamento por serviços ambientais. O país recebeu em 2020 US$ 96,5 milhões e pagou, até o momento, uma primeira parcela a seis primeiros beneficiários, no Pará. Pelo baixo nível de execução, dinheiro do Fundo Clima transferido do Orçamento da União ao BNDES acumulava até então um saldo de R$ 1,4 bi para empréstimos.

Além de representarem uma fatia mínima do orçamento, bem abaixo dos gastos necessários estimados para manter unidades de conservação na Amazônia, os gastos com a descarbonização encontram-se dispersos. Ações de eficiência energética e resíduos sólidos perderam status na lei. Gastos com agricultura de baixo carbono, que poderiam combater a segunda maior fonte de emissões (depois do desmatamento) não são distinguíveis dos subsídios do Tesouro aos créditos destinados à agricultura convencional.

Gastos indiretos (via renúncias fiscais) privilegiam setores intensivos de carbono (indústrias automobilística e petroquímica, termoeletricidade e gás natural liquefeito). Esses setores representam 65% mais gastos tributários que os estímulos concedidos ao biodiesel, à energia eólica e ao transporte coletivo.

A compensação financeira paga à União pela produção de petróleo e gás representa em 2022 uma receita de R$ 93,7 bi, quase 30 vezes o orçamento da descarbonização. Entre os gastos diretos da União, a lei orçamentária de 2022 autorizou gastos para estudos da indústria de petróleo e gás seis vezes maiores do que para estudos da indústria de biocombustíveis (R$ 4,9 bilhões contra 764 milhões) no programa orçamentário intitulado Petróleo, Gás, Derivados e Biocombustíveis.

Além disso, o Ministério de Minas e Energia destina à fabricação de equipamentos para a indústria de petróleo e gás neste ano R$ 33 milhões, enquanto o Ministério de Ciência e Tecnologia destina R$ 140 milhões para o fomento de pesquisa no setor de petróleo e gás natural. São valores elevados para a escala de gastos da agenda climática, mas bem distantes do montante arrecadado pela União a título de Compensação Financeira pela Exploração de Petróleo, Gás Natural e Outros Hidrocarbonetos. A receita estimada é de 69,9 bilhões neste ano. Parte desse dinheiro financia, inclusive, despesas da agenda climática, além de gastos com Defesa, Educação e Saúde.

Entre os gastos tributários, destacam-se os incentivos fiscais concedidos à produção de gás natural liquefeito, à indústria petroquímica e à geração termelétrica de energia, com valores de renúncia estimados para este ano em R$ 128 milhões, R$ 323 milhões e R$ 804 milhões, respectivamente. A soma desses valores não alcança nem a metade da renúncia estimada para os biocombustíveis. Entre os gastos indiretos que poderiam ser discutidos como contrários à agenda climática aparecem as renúncias fiscais ao setor automotivo e à Zona Franca de Manaus, essas últimas estimadas em R$ 56,4 bilhões em 2022.

O programa Mudança do Clima é o único conjunto de ações orçamentárias vinculado ao objetivo legal de “implementar políticas, ações e medidas para o enfrentamento da mudança do clima e dos seus efeitos, fomentando uma economia resiliente e de baixo carbono”. Esse programa teve gastos autorizados de R$ 462 milhões em 2022. Apesar do objetivo aparentemente ambicioso, o valor destinado ao programa equivale a menos de 0,02% das autorizações de gastos deste ano. Segundo o Relatório Stern, é preciso um investimento de 2% do PIB mundial.

Gastos atuais em relação ao PIB = 0,02%

Barreiras: Os principais obstáculos enfrentados na captura dos gastos públicos que contribuem para a mitigação das emissões de gases de efeito estufa e adaptação às mudanças climáticas são:

      • Falta de transparência, sobretudo nas despesas com a equalização de juros nos créditos à Agricultura de Baixo Carbono e no setor de energia, em que gastos com planejamento e regulamentação de energias renováveis aparecem sem distinção com fontes fósseis.
      • Dispersão de despesas que poderiam estar associadas ao objetivo orçamentário de mitigação e adaptação.

o que precisamos fazer?

Estabelecer um orçamento climático:

      • Defender o estabelecimento de um “orçamento climático” na formulação do planejamento de médio prazo do Plano Plurianual de 2024-2027, a ser votado em 2023 pelo Congresso Nacional, de forma a que as mitigações de gases de efeito estufa e medidas de adaptação às mudanças climáticas apareçam de forma transversal nas políticas públicas, sobretudo na área de agropecuária, energia, mobilidade urbana e resíduos sólidos, com o objetivo de contrapor a pouca expressão, a desorganização e a falta de transparência dos gastos públicos na agenda climática

Investir em áreas protegidas e floresta em pé:

      • Já na lei orçamentária de 2023, a ser proposta e discutida no segundo semestre de 2022, defender o aumento de gastos com áreas protegidas e a floresta em pé, dada a queda dos investimentos federais na criação, implementação, gestão de Unidades de Conservação e a insignificância dos gastos com bioeconomia.

Monitorar os gastos públicos com combate ao desmatamento:

      • Monitoramento dos gastos públicos com combate ao desmatamento, a principal fonte de emissão de gases de efeito estufa, com ênfase na qualidade do gasto, tendo em vista o desmonte ambiental em curso, com transferência do comando das operações de órgãos ambientais para militares, e as tentativas de contestar a expertise e minar a competência do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais para monitorar o desmatamento.

Ampliar o monitoramento do financiamento ambiental:

      • Ampliar o monitoramento do financiamento ambiental para os contratos do BNDES voltados à economia de baixo carbono, além do Fundo Clima.

Reestabelecer a governança do Fundo Amazônia:

      • Reestabelecer a governança do Fundo Amazônia, com mais de R$ 3 bilhões para novos contratos, assim como agilizar a execução dos recursos do Fundo Verde do Clima para pagamentos de serviços ambientais.
O Nossa Descarbonização é uma iniciativa do Instituto Talanoa. Nasceu em 2022 para acompanhar o estado da descarbonização no Brasil com um olhar sobre as políticas públicas imprescindíveis para avançarmos rumo aos objetivos do Acordo de Paris.

realização

apoio

Um projeto do Instituto Talanoa

O Nossa Descarbonização é uma iniciativa do Instituto Talanoa. Nasceu em 2022 para acompanhar o estado da descarbonização no Brasil com um olhar sobre as políticas públicas imprescindíveis para avançarmos rumo aos objetivos do Acordo de Paris.

realização

apoio

Um projeto do Instituto Talanoa

Os gastos públicos da União com mitigação dos gases de efeito estufa e adaptação às mudanças climáticas correspondem a apenas 0,15% em relação ao total das despesas federais autorizadas em 2022.

como estamos hoje?

como queremos estar em 2030?

A União investe pouco no combate às mudanças climáticas e investe mal. Em resumo, o combate ao desmatamento por militares em 2020 consumiu mais do que o dobro do dinheiro destinado aos órgãos ambientais nesse ano. O programa de mobilidade urbana destina mais dinheiro para pavimentação de vias, em detrimento ao transporte coletivo urbano ou não motorizado. A única experiência de pagamento por serviços ambientais com dinheiro da União foi suspensa em 2017.

Os recursos destinados à proteção ambiental pela União apresentam queda de 36%, entre os R$ 8 bilhões gastos em 2010 e os R$ 5,2 bilhões, em 2020. Têm destaque aqueles destinados ao abastecimento de água, esgotamento sanitário e poluição das águas, seguidos pelos gastos com proteção da biodiversidade e da paisagem.
Em maio de 2022, as doações feitas ao Fundo Amazônia acumulavam R$ 3,2 bilhões para empréstimos, congelados desde o início do governo Bolsonaro, em decorrência da mudança na forma de gerir os recursos. Também há recursos do Green Climate Fund, destinados ao Floresta +, de pagamento por serviços ambientais. O país recebeu em 2020 US$ 96,5 milhões e pagou, até o momento, uma primeira parcela a seis primeiros beneficiários, no Pará. Pelo baixo nível de execução, dinheiro do Fundo Clima transferido do Orçamento da União ao BNDES acumulava até então um saldo de R$ 1,4 bi para empréstimos.

Além de representarem uma fatia mínima do orçamento, bem abaixo dos gastos necessários estimados para manter unidades de conservação na Amazônia, os gastos com a descarbonização encontram-se dispersos. Ações de eficiência energética e resíduos sólidos perderam status na lei. Gastos com agricultura de baixo carbono, que poderiam combater a segunda maior fonte de emissões (depois do desmatamento) não são distinguíveis dos subsídios do Tesouro aos créditos destinados à agricultura convencional.

Gastos indiretos (via renúncias fiscais) privilegiam setores intensivos de carbono (indústrias automobilística e petroquímica, termoeletricidade e gás natural liquefeito). Esses setores representam 65% mais gastos tributários que os estímulos concedidos ao biodiesel, à energia eólica e ao transporte coletivo.

A compensação financeira paga à União pela produção de petróleo e gás representa em 2022 uma receita de R$ 93,7 bi, quase 30 vezes o orçamento da descarbonização. Entre os gastos diretos da União, a lei orçamentária de 2022 autorizou gastos para estudos da indústria de petróleo e gás seis vezes maiores do que para estudos da indústria de biocombustíveis (R$ 4,9 bilhões contra 764 milhões) no programa orçamentário intitulado Petróleo, Gás, Derivados e Biocombustíveis.

Além disso, o Ministério de Minas e Energia destina à fabricação de equipamentos para a indústria de petróleo e gás neste ano R$ 33 milhões, enquanto o Ministério de Ciência e Tecnologia destina R$ 140 milhões para o fomento de pesquisa no setor de petróleo e gás natural. São valores elevados para a escala de gastos da agenda climática, mas bem distantes do montante arrecadado pela União a título de Compensação Financeira pela Exploração de Petróleo, Gás Natural e Outros Hidrocarbonetos. A receita estimada é de 69,9 bilhões neste ano. Parte desse dinheiro financia, inclusive, despesas da agenda climática, além de gastos com Defesa, Educação e Saúde.

Entre os gastos tributários, destacam-se os incentivos fiscais concedidos à produção de gás natural liquefeito, à indústria petroquímica e à geração termelétrica de energia, com valores de renúncia estimados para este ano em R$ 128 milhões, R$ 323 milhões e R$ 804 milhões, respectivamente. A soma desses valores não alcança nem a metade da renúncia estimada para os biocombustíveis. Entre os gastos indiretos que poderiam ser discutidos como contrários à agenda climática aparecem as renúncias fiscais ao setor automotivo e à Zona Franca de Manaus, essas últimas estimadas em R$ 56,4 bilhões em 2022.

O programa Mudança do Clima é o único conjunto de ações orçamentárias vinculado ao objetivo legal de “implementar políticas, ações e medidas para o enfrentamento da mudança do clima e dos seus efeitos, fomentando uma economia resiliente e de baixo carbono”. Esse programa teve gastos autorizados de R$ 462 milhões em 2022. Apesar do objetivo aparentemente ambicioso, o valor destinado ao programa equivale a menos de 0,02% das autorizações de gastos deste ano. Segundo o Relatório Stern, é preciso um investimento de 2% do PIB mundial.

Gastos atuais em relação ao PIB = 0,02%

Barreiras: Os principais obstáculos enfrentados na captura dos gastos públicos que contribuem para a mitigação das emissões de gases de efeito estufa e adaptação às mudanças climáticas são:

      • Falta de transparência, sobretudo nas despesas com a equalização de juros nos créditos à Agricultura de Baixo Carbono e no setor de energia, em que gastos com planejamento e regulamentação de energias renováveis aparecem sem distinção com fontes fósseis.
      • Dispersão de despesas que poderiam estar associadas ao objetivo orçamentário de mitigação e adaptação.

o que precisamos fazer?

Estabelecer um orçamento climático:

      • Defender o estabelecimento de um “orçamento climático” na formulação do planejamento de médio prazo do Plano Plurianual de 2024-2027, a ser votado em 2023 pelo Congresso Nacional, de forma a que as mitigações de gases de efeito estufa e medidas de adaptação às mudanças climáticas apareçam de forma transversal nas políticas públicas, sobretudo na área de agropecuária, energia, mobilidade urbana e resíduos sólidos, com o objetivo de contrapor a pouca expressão, a desorganização e a falta de transparência dos gastos públicos na agenda climática

Investir em áreas protegidas e floresta em pé:

      • Já na lei orçamentária de 2023, a ser proposta e discutida no segundo semestre de 2022, defender o aumento de gastos com áreas protegidas e a floresta em pé, dada a queda dos investimentos federais na criação, implementação, gestão de Unidades de Conservação e a insignificância dos gastos com bioeconomia.

Monitorar os gastos públicos com combate ao desmatamento:

      • Monitoramento dos gastos públicos com combate ao desmatamento, a principal fonte de emissão de gases de efeito estufa, com ênfase na qualidade do gasto, tendo em vista o desmonte ambiental em curso, com transferência do comando das operações de órgãos ambientais para militares, e as tentativas de contestar a expertise e minar a competência do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais para monitorar o desmatamento.

Ampliar o monitoramento do financiamento ambiental:

      • Ampliar o monitoramento do financiamento ambiental para os contratos do BNDES voltados à economia de baixo carbono, além do Fundo Clima.

Reestabelecer a governança do Fundo Amazônia:

      • Reestabelecer a governança do Fundo Amazônia, com mais de R$ 3 bilhões para novos contratos, assim como agilizar a execução dos recursos do Fundo Verde do Clima para pagamentos de serviços ambientais.

Um projeto do Instituto Talanoa

O Nossa Descarbonização é uma iniciativa do Instituto Talanoa. Nasceu em 2022 para acompanhar o estado da descarbonização no Brasil com um olhar sobre as políticas públicas imprescindíveis para avançarmos rumo aos objetivos do Acordo de Paris.

realização

apoio

Um projeto do Instituto Talanoa